Peões Notáveis
O que há de comum entre a arte e o jogo é a sua finalidade sem fim, pois também o jogo “é uma atividade que se situa fora da esfera da necessidade ou da utilidade material” (Johan Huizinga, Homo Ludens). O que essencialmente os diferencia é o facto de no jogo as regras serem definidas à partida, obrigando os jogadores à sua estrita observância, sob pena de serem acusados de batota, enquanto que no domínio da arte as regras vão sendo definidas, alteradas e até mesmo pervertidas à medida que o “jogo” se desenvolve. Por isso, a criatividade é, ainda, o fator decisivo naquilo que a arte diz respeito, mesmo que se trate apenas de repetir, como genialmente o fez Sherrie Levine. Até porque, como nos ensina Jorge Luís Borges, através da curiosa personagem de Pierre Menard, até quando se repete, copia ou glosa uma obra, o contexto encarrega-se de trazer à luz uma nova criação. O título da exposição, “Peões Notáveis”, adverte o espectador para a entrada no território do paradoxo, espaço privilegiado da arte. De facto, qualquer pessoa, mesmo sem nunca ter jogado xadrez, sabe que o peão é a menos valiosa das peças do jogo. Como tal, dir-se-ia, à partida, que nenhum peão é notável e que nenhum notável poderá ser um simples peão. Contudo, basta ter em conta uma tela como a glosa que Vítor Frazão faz do quadro de Jacques-Louis David “Napoleão a atravessar os Alpes” para se perceber que os conceitos comuns são aqui ludicamente pervertidos, pois onde Hegel via o espírito do mundo montado a cavalo, a pintura deste artista permite vislumbrar um simples peão ao serviço da astúcia da história. Assim, no subtil e intrincado jogo propiciado pelas obras expostas podemos ir muito além do mero reconhecimento de figuras do nosso imaginário globalizado, deixando o sentido ao cuidado de cada espectador, o qual projetará no seu ecrã interior as formas que aqui se apresentam na sua ambiguidade criativa.

Fotografias
